A Petrobras vai avaliar se pode atender 100% da demanda por diesel no Brasil, segundo a presidente da estatal, Magda Chambriard. Conforme a executiva, a discussão será parte da revisão do plano de negócios da estatal, que começará a ser debatido em maio. A Petrobras costuma divulgar um novo plano a cada ano, em novembro, para o quinquênio seguinte.
“Estamos revendo o plano de negócios para alcançar 100% do mercado de diesel em cinco anos. Atualmente, a Petrobras tem 70% do mercado. No plano atual, até 2030, projetamos chegar aos 80%”, disse Chambriard em entrevista ao vivo à CNN ontem. Cerca de 25% a 30% do diesel consumido no Brasil é importado. No caso da Petrobras, essa importação costuma ser feita desde os Estados Unidos.
Para alcançar esses números, a presidente afirmou que a companhia planeja ampliar a capacidade das refinarias, com destaque para a Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, e a Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no Rio. “Aumentando [a produção] de diesel, a gasolina vem junto”, disse.
Pelo atual plano de negócios 2026-2030, a companhia prevê investir US$ 20 bilhões em refino, transporte e comercialização, cifra na qual estão inseridas as previsões de ampliar o parque de refino.
A Petrobras retomou em dezembro o projeto de duplicar a capacidade de produção da Rnest. Os investimentos são de R$ 12 bilhões, com previsão de conclusão em 2029. As obras, que vão adicionar mais 150 mil barris por dia de capacidade de refino, haviam sido suspensas em 2015 com denúncias de corrupção investigadas pela Lava-Jato. Em 2005, quando começou a construção, a refinaria era orçada em US$ 2,5 bilhões e deveria estar pronta até 2011. Mas, segundo cálculos do Tribunal de Contas da União (TCU), a unidade custou oito vezes mais, superando US$ 20 bilhões.
Segundo Chambriard, a companhia quer amortecer a volatilidade internacional para reduzir os impactos no mercado doméstico. “As declarações do presidente Donald Trump têm causado impacto adicional na volatilidade do petróleo. Nós monitoramos que, nos primeiros 20 dias de guerra, as declarações de Trump fizeram US$ 13 trilhões mudarem de mãos.”
Segundo Chambriard, o Brasil, que exporta petróleo majoritariamente para a Ásia, tem ganhado importância nesse cenário. “Crescemos de importância na exportação de petróleo para a Ásia, com a interrupção das entregas pelo Oriente Médio.”
Analistas divergem sobre a concretização do plano de autossuficiência no diesel. Para Filipe Rizzo, consultor de óleo e gás, é possível alcançar o objetivo com aumento de investimentos. “A Petrobras já vem ampliando as refinarias. Precisaria aumentar essa capacidade de refino, não precisaria construir unidades novas.” Para o especialista, em um cenário em que a guerra recue e reduza a demanda interna, a companhia poderia passar a exportar diesel. Mas, na visão dele, essa situação não deve se tornar realidade a médio prazo.
Por outro lado, Pedro Rodrigues, sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), entende que o aumento de capacidade de refino deveria acontecer junto com agentes privados, para que não haja monopólio da estatal. “Mas ser autossuficiente não significaria que a Petrobras venderia diesel mais barato que o importado. Para isso acontecer, ela teria que ser 100% estatal, fazendo política pública.”
Magda Chambriard disse também que a companhia tem buscado aumentar a produção de gás natural para reduzir o preço. Conforme a executiva, desde quando assumiu, a produção da Petrobras saiu de 29 milhões de metros cúbicos por dia para uma média de 50 milhões de metros cúbicos por dia. “Quando assumi, pedi para aumentarmos a produção de gás natural”, disse. “Algumas plataformas da Petrobras não foram construídas com capacidade de trazer gás para a costa. Nós ampliamos a capacidade das que podíamos e estamos colocando um ‘hub’ de gás no campo de Búzios.”
Segundo a executiva, a companhia tem buscado reduzir o preço do gás com a ampliação da produção. “Mudar o gás de mãos não baixa o preço. O que baixa o preço do gás é compromisso de produzir mais. Quanto mais gás, menor o preço. Trabalhamos em prol do benefício de oferta e procura.”
Kariny Leal – Valor Econômico